Sábado, Dezembro 31, 2005
Para começar bem o ano:
Leiam Senhores e Servos do Tolstói. É curtinho, é fantástico. A edição de bolso da Martin Claret custa déiz reau e de lambuja vem com A Morte de Ivan Ilitch, não tão empolgante mas não menos interessante.
Largado aqui por Pedro às
11:42
Rabisque suas palavras:
Sexta-feira, Dezembro 30, 2005
Quero escrever de verdade.
Quero um livro meu.
Quero um mestrado, de preferência no exterior.
Quero voltar à Itália e conhecer (mais) Portugal.
Quero alguém do sexo feminino, de fino trato (não precisa custar quatro camelos como as do Luiz), com quem vou passear no lago, ir para um boteco ou cinema ou um show qualquer, ver filme em casa comendo pizza e caminhar no parque de mãos dadas. Ela deitará no meu colo enquanto estivermos lendo e ouvindo baixinho a respiração um do outro e receberá de mim flores e sonetos.
Quero trabalhar.
Quero aprender francês e italiano.
Quero tocar chorinho na clarineta, ir a mais saraus e rodas-de-samba.
Quero serenidade para mim, pode vir com lágrimas, pode vir sem nada.
Uma das perguntas mais difíceis quando se tem vinte e poucos anos é "o que você quer?". Acho que a respondi.
Feliz 2006.
Largado aqui por Pedro às
22:32
Rabisque suas palavras:
Quinta-feira, Dezembro 29, 2005
Dei uma olhada nos arquivos deste blog do fim do ano passado para ver se encontrava alguma lista ou promessa para 2005 e logo me deparei com a seguinte frase: "não faço listas de fim de ano". Até levei um susto de mim mesmo.
É verdade que raramente faço promessas de fim de ano (ou de qualquer tipo) ou listas de coisas boas ou ruins que aconteceram ou que quero que aconteçam. Mas acho importante a virada do ano para fazermos o balanço, a natureza funciona em ciclos e nós também, inevitavelmente. Fiz exatamente este balanço há um ano. Para mim 2004 teve mudanças importantes e prometeu bastante para 2005.
Porém, sou levado a fazer um balanço bem contraditório de 2005. Se em algumas coisas eu me realizei, para outras o ano foi um desastroso pé-na-jaca. Neste ano sofri a tentação incontornável da vida adulta em se tornar mesquinho, reclamão, rabugento, impaciente, de só pensar em dinheiro e gastos, de resumir a vida em acordar-trabalhar-ver TV-dormir (parece uma tirinha do Malvados), a que muita gente fatalmente se entrega. Por outro lado, foi um ano de uma produção literária inédita, digamos assim: escrevi nada menos do que 53 poemas em 2005, praticamente um por semana, sem contar os ensaios de prosa e as inúmeras leituras que nada tinham a ver com estudo. Comprei um carro. Conheci a Europa e o Vaticano. Sacramentei amizades que se provaram acima de qualquer viagem ou poesia. Nisso me sinto realizado.
Foi uma droga lidar com todas as frustrações e mesquinharias que se lhe impõem a partir de agora, ainda mais quando se percebe o contraste com 2004, recheado de misticismo, de uma experiência espiritual que marcou minha vida. A mesma experiência pareceu tola ao enfrentar um congestionamento numa quarta-feira. Espero que 2006 seja uma tão-necessária síntese, o surgimento daquele ser de espiritualidade que mantém-se maestralmente no mundo complicado das coisas. Pois sou assim, conversão constante, recorrente, sempre laborosa.
Largado aqui por Pedro às
19:01
Rabisque suas palavras:
Terça-feira, Dezembro 27, 2005
Novidades na Fantástica Fábrica de Blog. Eu ia esperar a entrada de 2006, mas quando enfio uma coisa na cabeça...
As novidades são quase todas literárias. Como sabem (ou deviam saber) não sou muito fã de colocar minha produção literária, se é que pode ter esse nome, na web. Mesmo assim, reorganizei alguns poemas que devem dar um tom mais agradável a este blog, acredito eu. O resultado da reorganização é o seguinte:
- Os poemas mais antigos que estavam em pdf agora estão reunidos em html no link Poemas diversos. Chega de Acrobat Reader pra ler poesia!
- Uma nova e pequena obra provisoriamente intitulada Ares do viajante está online. Farei mais comentários sobre ela quando estiver melhor trabalhada.
- Finalmente escrevi sonetos, são dois até agora, e também estão no menu de poemas!
Ademais, as prosas continuam a mesmas, em pdf, só mudaram de lugar. Espero que os links funcionem desta vez. Ah, e tem um fotolog novo na área que a Lia me deu de presente de Natal =)
Aproveitem.
Largado aqui por Pedro às
00:46
Rabisque suas palavras:
Segunda-feira, Dezembro 26, 2005
Uma coisa me desanima no Natal, fora o tão-citado consumismo exagerado: a estupidez dominante. Ela acontece o ano inteiro, mas torna-se especialmente insuportável quando lembram na TV que Jesus andou por aqui e pouco se sabe Dele como o século XXI gostaria.
Tá, eu passei 15 minutos assistindo ao Fantástico no Natal para, sem qualquer explicação racional, viver momentos de indignação. Passaram dois quadros muito inúteis e mal-feitos, porém dogmatizados como axiomas, como só poderia haver naquele programa. Um deles foi sobre a provável dieta de Jesus, uma informação que pode ser construtiva para aquelas pessoas que acham que no Oriente Médio só existe pão, trigo (pra fazer pão) e peixe.
O outro quadro, não menos mal-feito mas igualmente imortalizado na Enciclopédia Globo de Descobertas, afirmava que Jesus teve irmãos de sangue, filhos de José e Maria. Só que isso é pura incapacidade de ler a Bíblia, já que os "irmãos" citados lá são filhos de Maria de Cleófas (que obviamente não é Maria mãe de Jesus) ou de Zebedeu, o que levaria a crer que ou Maria ou José eram adúlteros e pela lei judaica deviam ser apedrejados. Até já me inventaram "Tiagos" a mais para sustentar a tese dos irmãos de sangue, um último ato desesperado. A fórmula é simples: leia com cuidado e saberá a verdade, pois quem procura chifre em cabeça de cavalo bíblico certamente encontra.
E agora estou onde queria chegar. Natal é o nascimento de Jesus Cristo. Há dois mil anos faz-se a mesma pergunta: quem é Jesus Cristo? Explicações existem aos montes, cada um puxando a sardinha para o seu lado. Fala-se do "Jesus histórico" porque Jesus causa fascinação em qualquer um e carregar o "fardo religioso" ao se falar Dele pode ser muito pesado para alguns; mas não existe "Jesus histórico" e "Jesus religioso" como não há "Pedro bacharel em relações internacionais" e "Pedro pretenso escritor", pois Pedro é um como Jesus é um. Fala-se de "Jesus sem-terra", "Jesus comunista", "Jesus revolucionário", "Jesus rabino". A pergunta é tão intrigante que o próprio Jesus Cristo a fez.
[Jesus] No dizer do povo, quem é o Filho do Homem?
[Discípulos] Uns dizem que é João Batista, outros, Elias; outros, Jeremias ou um dos profetas.
[Jesus] E vós, quem dizeis que eu sou?
[Pedro, sempre ele] Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo!
[Jesus] Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos céus. E eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.
Pedro disse a verdade porque não ouviu o que os outros achavam, sequer o que ele achava: a verdade foi-lhe revelada misticamente. Por causa disso Jesus confirmou o primado de Pedro frente aos outros apóstolos. Esta passagem inteira (Mt 16,13-19) está escrita em latim com mosaicos em toda à volta da nave da Basílica de São Pedro, no Vaticano. Quem entra é convidado a olhar para cima como em qualquer templo grandioso, e ao levantar os olhos se depara com a pergunta milenar: "E você, peregrino? E você, Pedro, Tiago, João, Marília, Isabela -- quem você diz que Eu sou?"
"No dizer do povo", da mídia, do escambau, podem falar o que quiserem. Inventa-se muita coisa. Mas o Natal está aí, Jesus chegou, e a pergunta não se calou ainda.
Largado aqui por Pedro às
00:00
Rabisque suas palavras:
Domingo, Dezembro 25, 2005
Et peperit filium suum primogenitum; et pannis eum involvit et reclinavit eum in praesepium, quia non erat eis locus in deversorio.
Lucam II, VII
Largado aqui por Pedro às
21:38
Rabisque suas palavras:
Quinta-feira, Dezembro 22, 2005
Felicità
C'è un'ape che se posa
su un bottone de rosa:
lo succhia e se ne va...
Tutto sommato, la felicità
è una piccola cosa.
(Trilussa)
Largado aqui por Pedro às
17:03
Rabisque suas palavras:
Você compra um livro -- literatura, de preferência -- o lê inteiro como se nunca mais fosse parar, e ele te agrada muito. Você quer partilhá-lo com outras pessoas. Então se cadastra num site, atribui um código ao livro, anota nele o site e o código e o "esquece" em algum lugar. Pronto, agora você é colaborador de uma gigantesca biblioteca comunitária e quase de graça e recebe uma notificação toda vez que seu livro, ou livros, muda de mão.
Literatura tem de ser assim, uma surpresa agradável.
Largado aqui por Pedro às
17:02
Rabisque suas palavras:
Segunda-feira, Dezembro 19, 2005
Os suspiros diminuíram um pouco, e não foi por causa de Platão, como ficou a parecer ontem. Quem me conhece de muito perto sabe que eu suspiro demais, geralmente sem motivo algum. É que estou à espera.
Uma amiga colocou no seu nick do msn o complemento "aberta a...", o que obviamente (pela mediocridade dos outros e não pelo fato em si) gerou alguns comentários sarcásticos. Entendo a sensação que ela quis passar, entretanto mudar o nick para "disponível a..." ou outra expressão semelhante provavelmente pioraria a situação. Ela estava à espera, mas sem acomodação ou impaciência, como alguém que aguarda um ônibus sentado na parada e aproveita para ler um livro divertido, ligar para alguém querido e fazer mil coisas empolgantes num pequeno mundinho, esquecendo-se às vezes até do ônibus. Aberta a possibilidades, a oportunidades, ao que pudesse chegar à frente como um convite tentador e incitar o prazer de simplesmente aceitá-lo. Fiz algo parecido quando comprei o pífaro no trabalho. Faço isso ao tentar escrever, com receio da falta de talento e desconhecimento do caminho a seguir. Farei isso no ano que se aproxima, em tantas coisas que seria impossível listá-las, ainda porque não conheço nem a metade delas.
Pedro, no aguardo, mas ainda de pé. And Plato can kiss my cute white ass.
Largado aqui por Pedro às
21:30
Rabisque suas palavras:
O pior momento de tentar escrever prosa -- sim, tento desde uns posts atrás -- é pensar durante muito tempo com as mãos em cima do teclado e não sair absolutamente nada. No tempo da máquina de escrever ainda devia ser melhor: mesmo que o escritor não aproveitasse uma letra sequer em horas de trabalho, os papéis arrancados com indignação e largados em pilhas amassadas eram a prova de que alguma coisa fora feita. Com o computador as palavras inúteis partem para a não-existência para nunca mais voltarem, e não servem nem como combustível. A inércia criativa do escritor computadorizado é pior, dela nada se aproveita, tudo se perde e a conta do tempo ao final de tudo é do puro ócio. E não dá dinheiro.
A minha antes tão frutífera imaginação precisou de um motor de arranque. Revirei praticamente todos os poemas que escrevi até agora. Mas poesia nem sempre incita a prosa, a experimentação da essência na primeira não costuma render histórias para a segunda. Guardei os poemas e abri um livro do Ítalo Calvino, As cidades invisíveis, depois The Catcher in the Rye do Salinger e Senhora do José de Alencar. Três livros completamente diferentes, todos prosas, todos começando com a naturalidade daquela conversa à noite na roça, ouvintes sentados nas redes trocando dois dedim de... qual o nome mesmo?... prosa. Achei mais indignação com a desenvoltura alheia do que a inspiração que eu procurava.
Na minha cabeça brotou tanta idéia incompleta de uma vez que a saída delas entupiu. O congestionamento atrapalhou tudo e por enquanto só consigo fazer o que faço neste exato momento: uma prosinha ensaística, reclamando de Deus e o mundo.
Largado aqui por Pedro às
21:17
Rabisque suas palavras:
Domingo, Dezembro 18, 2005
Fora isso, a mesma coisa de sempre. Ia a Ouro Preto, não vou mais. Pensei que tinha algum dinheiro, não tenho mais. E meus suspiros ganharam maior freqüência.
Largado aqui por Pedro às
00:23
Rabisque suas palavras:
Tirando a poeira da joça.
Domingo passado fui ao Sonhar Acordado, uma ong que promove trabalho voluntário com crianças em regiões carentes do DF. Fazem duas grandes festas por ano, uma delas sempre perto do Natal. Taí o resultado:
O dia inteiro foi de altos papos com esse garoto de 3 anos, o da direita, que só me chamava de "Tio Pledlo" (Dea, lembrei muito de você!). Depois de ganhar dor nos ombros por carregar o moleque nada leve durante horas e de ser atacado por quatro crianças ao mesmo tempo, foi difícil retomar o vocabulário adulto para conversar com gente grande novamente.
Largado aqui por Pedro às
00:22
Rabisque suas palavras:
Quinta-feira, Dezembro 08, 2005
Crap, Plato is back again. Quem a mandou ficar tão linda em foto nova? Vaffanculo, testa di cazzo, pezzo di stronzo.
Mas eu dou cabo dele, ah se dou. Só preciso fechar a gestalt...
Cazzo.
*  * * *
Crap all over again.
Preciso de um surto. É que eu to dando boot com o Pedro versão 2004 beta, acho que essa versão só pega no tranco. Tá difícil de achar no mercado legal. Alguém me ajuda a encontrar o Pedro Gontijo por aí? Se estiver acessível, tanto melhor.
Quero sumir, de preferência em Ouro Preto.
Largado aqui por Pedro às
00:13
Rabisque suas palavras:
Quarta-feira, Dezembro 07, 2005
Tornei-me uma figura de livro, uma vida lida. O que sinto é (sem que eu queira) sentido para se escrever o que se sentiu. O que penso está logo em palavras, misturado com imagens que o desfazem, aberto em ritmos que são outra coisa qualquer. De tanto recompor-me destruí-me. De tanto pensar-me, sou já meus pensamentos mas não eu. Sondei-me e deixei cair a sonda; vivo a pensar se sou fundo ou não, sem outra sonda agora senão o olhar que me mostra, claro a negro no espelho do poço alto, meu próprio rosto que me contempla contemplá-lo.
Pessoa, in Livro do Desassossego
Gontijo, in tentando buscar ele-mesmo.
Largado aqui por Pedro às
13:50
Rabisque suas palavras:
Terça-feira, Dezembro 06, 2005
Já me revelaram num sotaque luso, com palavras voadas de terras alentejanas por sobre todo o Atlântico, "tens alma de poeta".
Claro que minhas palavras voaram antes pelo caminho inverso, a pedido dos patrícios, e agradou-lhes a ponto de me fazerem uma declaração dessas por vontade e não por boa educação, assim espero. Eu, para meus irmãos portugueses, tenho alma de poeta. Eu que escrevo na nossa língua, antes deles e depois minha, faço a poesia que tanto os agradou quase sem pensar, duma vez, e foram poucas as ocasiões em que tive de voltar para o mesmo poema inúmeras vezes, por dias seguidos, para terminá-lo. Meus poemas são surtos de sabe-se lá o quê que soam bem aos ouvidos, tecem brincadeira ou outra, e só. Suspiros profundos logo esquecidos.
Digo isso porque sinto com todos os sentidos literários que me falta muita coisa. Não apenas a escrita menos ingêunua que só se consegue com o tempo e o esforço, mas também o que vai além do encadear das palavras, o que emenda idéias e histórias, cenas e pessoas; o que faz alguém merecer ser chamado de escritor. Falta-me tudo isso e a paciência de encarar minha falta.
Por isso, não sei se devo me aventurar pela prosa. Já tentei, já fui melhor. Acredito que seria melhor ensaísta, devido aos costumes da faculdade e aos ensaios que literalmente fiz com as palavras, mas não tenho trama, não tenho na cabeça sequer os elementos da narrativa; falham-me a crônica de qualquer tipo, o conto e a novela, e os romances são pouco menos que devaneios mentais sem chances de se concretizarem. Até de vocabulário estou, digamos, sofrível.
Talvez seja a sina de quem porventura tenha alma de poeta. É marginalizado, servo das palavras, trava-se se não as encontra, mói-se de ódio quando fogem, rejubila-se quando retornam, cai de amores quando satisfazem. Sou assim, nas letras e no mundo. Quem sabe não estão mesmo certos lá para os lados do Alentejo?
Largado aqui por Pedro às
11:13
Rabisque suas palavras:
Sexta-feira, Dezembro 02, 2005
Dois assuntos delicados num único dia: a pandemia HIV/Aids e o Dia Mundial pelo combate a ela, ontem, e debates sobre a pena de morte no dia do milésimo cumprimento dessa pena nos EUA desde 1976. Ambos foram tratados ontem pela Rádio Vaticano no programa em inglês One-O-Five Live. Sobre o primeiro assunto, o trabalho da Caritas Internationalis para combater a Aids, especialmente na África e na Europa Oriental.
Não adianta falarem dos "tempos atuais" nos quais é impossível combater a Aids sem camisinha. Essa crença é o que torna impossível a prática. Tanto é possivel que acontece.
Largado aqui por Pedro às
22:06
Rabisque suas palavras:
Quinta-feira, Dezembro 01, 2005
Out of business (eu, não o blog)
Estou de férias até segunda ordem. Não me perguntem, eu ainda tô tentando descobrir como isso funciona exatamente.
Não sei o que é pior:
- ter coisas que gostaria de fazer, sendo capaz até de listá-las, mas não poder fazê-las por pura falta de tempo; ou
- ter muito tempo e muitas coisas para se fazer mas não fazer nada por pura incapacidade em escolher.
Largado aqui por Pedro às
23:47
Rabisque suas palavras:
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